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O futuro das finanças na América Latina e no Caribe

Open finance traz oportunidades de crédito e aumenta a concorrência no Brasil

set 21, 2022

Por Roberta Prescott

Em um evento privado da iupana e da Veritran, especialistas concordaram que a agenda do Banco Central do Brasil impulsiona a inovação financeira. Eles também compartilharam os desafios de open finance e discutiram seu impacto sobre a concorrência no setor

 

A evolução da agenda regulatória brasileira, a internacionalização e os desafios e oportunidades decorrentes da tendência de financiamento aberto foram alguns dos tópicos discutidos na mesa redonda privada Finanças sem Fronteiras, organizada pela iupana em parceria com a Veritran, em São Paulo.

A avaliação geral dos especialistas presentes no evento privado foi de que a agenda de inovação lançada pelo Banco Central do Brasil (BCB) coloca o País à frente de outras nações das Américas. A rápida adesão ao Pix, que permite transferências em poucos segundos (24 horas, sete dias por semana) — é um exemplo da ação do regulador para democratizar serviços, aumentar a competitividade, reduzir atritos e encurtar fronteiras nas finanças, que se tornarão cada vez mais globais.

Diego Perez, presidente da ABFintechs e CEO da SMU Investimentos, destacou que todas as ações do BCB levaram a uma redução na preponderância das poucas entidades bancárias do País. O crescimento das fintechs, também apoiado por regulamentos, mostra o apetite por uma maior concorrência no setor.

“Os resultados esperados foram alcançados. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em discurso público, mencionou que a concentração bancária dos cinco grandes bancos, que foi de 81%, com o impulso das fintechs, foi reduzida em cerca de 10 pontos percentuais, e já está em 71%. Mas, 71% ainda é muito grande”, disse Perez.

Mais recentemente, outros instrumentos capazes de aumentar o acesso ao crédito foram avançados, tais como o marco legal para garantias de empréstimos, além de open finance. “Aí vemos uma grande vantagem, principalmente na questão de open banking; de poder ter uma análise de crédito muito mais robusta. E também analisamos como isso terá impacto sobre aqueles que estão entrando no mercado agora, começando a competir. Penso que a questão de saber como fazer crédito, como operacionalizá-lo, como analisá-lo vale muito mais do que apenas ter a informação, pois levará muito tempo para aprender a utilizá-la”, disse Filipe Jorge, vice-presidente de desenvolvimento corporativo da Creditas.

Embora open banking  não tenha tido, até agora, uma forte adesão da população, a expectativa é de que ele ganhe volume à medida que os produtos oferecidos se tornem mais úteis e os usuários possam tirar proveito do compartilhamento de seus dados. “É proporcionar um benefício tangível, que seja conveniente, com benefício econômico, maior segurança na identificação ou algum crédito. E, então, o grande papel do Banco Central tem sido permitir  uma infraestrutura organizada na qual as coisas vão acontecer, fornecendo uma estrutura de segurança para que esse compartilhamento e o uso de informações aconteçam”, disse Glauber Mota, CEO do neobanco Revolut Brasil.

“Nosso grande papel é traduzir isto em um benefício para o cliente e entregá-lo a eles de forma eficaz”, acrescentou ele.

Nesse sentido, Wagner Martin, VP de negócios da Veritran, concordou que open finance se traduz em várias vantagens para o cliente final em termos de uma melhor experiência.

“A redução do atrito do usuário já é um benefício. Às vezes, uma usabilidade mais simples para a mesma coisa já é um benefício. Os primeiros a demonstrar os benefícios serão os early adopters e eles terão muitos clientes”, explicou ele, acrescentando que haverá cooperação entre bancos e fintechs neste ambiente aberto, pois, quanto mais compartilhamento de dados e segurança for garantido, mais diversificação haverá para oferecer.

Transformação do open finance para bancos e fintechs

O consenso é que, com open finance, tanto os bancos como as fintechs têm um papel de entregar grandes experiências e inovações às pessoas, sempre colocando o usuário no centro. Entre os casos de uso, especialistas citaram aplicativos que trazem soluções integradas para a gestão financeira.

“À medida que mais participantes ingressam no open banking, veremos a viabilidade de mais casos de uso. Quando olhamos para a Inglaterra, o Reino Unido, hoje, é um caso de sucesso, tanto na parte de iniciação de pagamentos, quanto na parte de compartilhamento, precisamente, dos dados de registro e dados transacionais”, acrescentou Alexandre Riccio, VP de tecnologia, operações e finanças do banco digital Inter.

Um dos pontos do sistema financeiro aberto é que ele ajuda a reduzir a assimetria de informação. “Open banking foi uma iniciativa do Banco Central com uma agenda de implementação bastante arrojada. Ainda há questões a serem trabalhadas e, até que tenhamos um sistema suficientemente maduro, ainda temos alguns anos pela frente”, avaliou Larissa Arruy, sócia e vice-presidente da Neon Pagamentos.

Para ela, quando a plataforma estiver madura, todo o mercado passará por um momento de transformação, inclusive devid o à  possibilidade de adicionar dados de fora do sistema financeiro. “Teremos um novo cenário de oportunidades para, por exemplo, fazer análises de crédito e estaremos olhando para uma população que ainda está à margem deste mercado”, acrescentou Arruy.

Embora a adoção de open banking  ainda esteja em um estágio inicial, quando as chamadas killers apps (que definem o antes e o depois em uma tendência tecnológica) forem lançadas, a adesão será exponencial, acrescentou Mota, da Revolut Brasil. Para tanto, o mercado ainda vai passar por uma curva de aprendizado sobre inteligência de negócios e inteligência artificial (IA) para reunir todas as peças necessárias para um desenvolvimento frutífero.

“Você vai poder, por exemplo, entregar uma ferramenta de gestão financeira pessoal (PFM, na sigla em inglês para personal financial management), onde você poderá ver todas as contas, além do unificador, com gráficos e mostrando onde o dinheiro está sendo gasto, isto é, inteligência empresarial”, acrescentou Wagner Martin, da Veritran.

Riccio, do Inter, mencionou que open banking  será amplamente utilizado na aprovação de crédito, pois aumenta a eficiência da análise e novos clientes podem ter mais benefícios.

Além disso, open banking  dá aos bancos e às fintechs a capacidade de aumentar o crédito a seus clientes com base em suas transações em outras instituições. “O open finance do Brasil tem um alcance ainda maior do que em outros países. Com o consentimento, podemos ter acesso à carteira de investimentos do cliente e, com isso, há um aumento na assertividade na concessão de crédito”, disse o CEO da Revolut Brasil.

Por sua vez, Filipe Jorge, da Creditas, acrescentou que todo o sistema bancário aberto pode reduzir fraudes e melhorar o atendimento ao cliente, pois as instituições financeiras têm acesso a mais informações e podem aprender mais sobre os usuários.

A próxima fronteira das finanças abertas: a internacionalização

Com o nível de competição que open banking trará no médio prazo, não será possível aos atores atacarem todas as frentes ao mesmo tempo. Do ponto de vista comercial, há um grande desafio para as organizações para entender quem é seu público e onde elas têm condições de ser competitivas.

Tudo isso cria o efeito de levar as instituições a se concentrarem na execução e a compreenderem, efetivamente, onde elas agregam valor ao cliente. “Com a concorrência mais acirrada, o cliente terá a capacidade de olhar onde, de fato, tem o melhor seguro, onde tem o melhor crédito. Portanto, pessoalmente, acho que teremos um movimento para promover o desempenho de nichos de mercado, para que você entenda no que você é realmente bom e onde pode ser competitivo, porque é muito difícil ser efetivamente competitivo em todas as frentes”, explicou Larissa Arruy da Neon Pagamentos.

Olhando para o futuro, os especialistas destacaram a internacionalização e concordaram que a nova lei cambial,que entra em vigor no fim do ano, além de impulsionar o progresso tecnológico, é uma oportunidade para expandir este mercado. O novo regulamento torna mais flexível a participação de fintechs que operam como instituições de pagamento (IPs) no câmbio de moedas. E, para Larissa Arruy, da Neon Pagamentos, é uma modificação que levará a uma redução nos custos e a um aumento na eficiência.

Enquanto isso, segundo Perez, da ABFintechs, os segmentos mais ativos em seu setor são a internacionalização.

O onboarding  internacional será fundamental para este futuro — assim como as iniciativas como Pix e o real digital, a moeda digital do Banco Central) — para transferências transfronteiriças e pagamentos internacionais. Para Mota, isto acontecerá mais rapidamente no ambiente e no ecossistema privados do que no público, pelo menos inicialmente e nos próximos anos.

“É uma demanda de mercado. Se o regulador não tiver a mesma velocidade, o mercado responde. As telcos nunca tiveram a velocidade para fazer o que WhatsApp fez e o mercado respondeu. Isso é um pouco do que está acontecendo  neste caso. A Revolut é um grande exemplo disso; e a Veritran sabe como embarcar em um mexicano no México e em um argentino na Argentina, porque são distintos e  sabemos que isso irá convergir. E um dia será one for all, o que significa que você terá a mesma conta no mesmo lugar onde você pode interagir. Este é um movimento muito forte”, disse Martin, da Veritran.

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