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Contra os invernos, Mercado Bitcoin une serviços criptográficos aos de banco

nov 21, 2022

Por Roberta Prescott

O ecossistema de criptomoedas está amadurecendo e seu eixo não está mais nos investimentos. O avanço dos NFTs, a tokenização e a expansão do blockchain são exemplos apontados por Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin, em entrevista exclusiva à iupana

 

Os casos de uso de cripto estão mudando o foco de investimentos para blockchain, como um meio de substituir os intermediários do mercado financeiro. Assim resumiu Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin, em entrevista à  iupana, na qual o executivo falou sobre os planos de crescimento da bolsa brasileira, incluindo sua internacionalização, enquanto avaliava as perspectivas do setor.

A recente quebra da exchange  americana FTX colocou um novo escrutínio sobre as empresas de serviços financeiros baseadas em tecnologias blockchain, que ainda não haviam se recuperado totalmente do inverno cripto em meados deste ano.

No entanto, e em linha com a opinião de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil, Rabelo disse acreditar que os mercados financeiros serão tokenizados no futuro. “Isso significa que vamos substituir o elemento eletrônico digital, as ferramentas de relacionamento com bancos e exchanges para passar para algo baseado em outro modelo. Acredito fortemente nessa perspectiva de mercado financeiro tokenizado. Campos Neto vai além, fala sobre tokenização de dados para monetizá-lo e utilities tokens. A tokenização também atingirá as relações não financeiras”, explica.

Um passo importante nesse sentido será a aprovação do marco legal para criptomoedas. O Projeto de Lei (PL) 4401/21, que regulamentará a comercialização de criptomoedas no Brasil, ainda aguarda votação final. O projeto já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, mas voltou aos deputados para votação das emendas. Como o relator do projeto, o deputado federal Expedito Netto, não foi reeleito para um segundo mandato, há expectativa no mercado se o PL será aprovado ainda este ano.

Essa expectativa aumenta à medida que o governo transita após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Para Rabelo, o fato de ter havido mudança de governo não muda muito o setor cripto.

“A discussão é em nível técnico. Qualquer um dos grupos que poderiam liderar o governo a partir do próximo ano tem interesse e preocupação com a questão das criptos. Um mercado global está surgindo e há problemas que devem ser enfrentados e monitorados: não vai mudar quem entra na presidência, porque as questões estão mais ligadas ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que são independentes e com diretores com mandatos mais longos", acrescenta.

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Criptobanco em formação

O mercado de Bitcoin (MB) cresceu junto com o ecossistema. Em julho de 2021, recebeu US$ 200 milhões do Softbank, o que os tornou o primeiro criptounicórnio do Brasil. Em janeiro de 2022, o Mercado Livre anunciou a aquisição das ações do Grupo 2TM, controladora da MB, cujos valores não foram divulgados.

“Tivemos um crescimento extraordinário em 2021, junto com evoluções de mercado que nos permitiram chegar a investimentos de fundos e até empresas estratégicas como o Mercado Livre. Foi um ano importante para reforçarmos nossa capacidade de execução de longo prazo”, afirma o CEO.

“Em 2022, estamos executando a estratégia enquanto lidamos com o cenário macro de quase recessão e o inverno cripto. Estamos fazendo os ajustes necessários, mas organizando equipes, pessoas e plataformas para que nosso negócio continue sendo referência por conectar pessoas e empresas na nova economia digital”, afirma.

O Mercado Bitcoin aguarda sua licença de instituição de pagamento (IP) autorizada para acessar diretamente o Banco Central e não precisar contratar terceiros. Segundo Rabelo, isso proporciona um elemento de maior segurança e conforto para o cliente. Mas antes disso, a MB deve começar a oferecer produtos tradicionais em sua plataforma, como transferências, cartões, serviços de boletos de pagamento.

A ideia é atuar como um criptobanco reduzindo o atrito para o cliente final. “Com o cartão, precisamos permitir que o cliente use seu saldo de criptomoedas para fazer uma compra em reais, conosco fazendo a conversão e sem que ele se preocupe em converter suas criptomoedas”, diz.

Outro exemplo é seu braço de gestão de investimentos, a MB Asset, que oferece participação em fundos de investimento na plataforma, de forma a não agregar complexidade ao cliente. "Não queremos ser apenas mais um shopping de investimentos com muitos produtos, mas, ao contrário, ter poucos recursos e apresentar o mercado para o cliente que está começando a investir."

 

Expansão internacional

A estratégia de ser uma plataforma onde o cliente pode realizar diversas operações serve de escudo para vencer a concorrência e manter o Mercado Bitcoin forte no mercado. Hoje, eles estão empenhados em ir além de ser apenas uma troca: buscar oferecer ao cliente um serviço completo.

“Estamos sempre em movimentos de crescimento e surgimento de exchanges. Em 2017, quando experimentamos o primeiro grande boom, surgiram dezenas de exchanges. Em 2018, eram quase cem e muitas sem muito suporte financeiro, mas com o inverno cripto do fim de 2018, quase todas acabaram fechando, como a própria XP, que fechou sua exchange em 2019. Esse movimento é natural, de todo mundo tentando participar do mercado de alguma forma e para nós não é tão diferente”, avalia Reinaldo Rabelo.

“Agora que a XP anunciou que não é mais banco, talvez, seja oportunidade de ocupar o espaço deles. Temos esta expectativa de levar para o setor bancário o que achamos que é o elemento de disrupção que cripto permite ter”, assinala o CEO.

O inverno criptográfico mais recente é diferente em relação a 2018, “porque a queda é maior, já que o mercado é muito maior agora”. O aspecto negativo, acrescenta, é que isso acabou assustando quem não está tão acostumado com as idas e vindas do setor. No entanto, destaca que o mercado está maior e mais maduro, gerando um cenário mais consistente de relacionamento com a criptoeconomia. “Se este inverno durar mais, veremos uma diminuição de competidores, muitos dos quais não conseguirão se sustentar”, diz.

A MB quer se posicionar como uma alternativa no setor bancário baseada no elemento disruptivo das criptomoedas. Rabelo afirma que, desde sua criação em 2013, eles tinham expectativas de criar uma ponte entre os mercados financeiros, trazendo para o tradicional os elementos que são relevantes no mundo das criptos. Um desses pilares é ser global.

Em janeiro de 2022, a 2TM, controladora do Mercado Bitcoin, adquiriu uma participação majoritária na Criptoloja, uma bolsa de ativos digitais com sede em Lisboa que iniciou operações em Portugal em julho de 2021. “Temos uma operação criptográfica autorizada pelo Banco Central em Portugal e estamos transformando-a na bolsa MB da Europa para operar no mercado europeu ao longo do próximo ano”, relata Rabelo.

A expansão ainda tem o México no radar, onde o Mercado Bitcoin é licenciado como entidade autorizada pelas autoridades locais (Comissão Nacional de Bancos e Valores e Banco Central). “Estamos aguardando autorização do regulador local para finalizar uma aquisição lá; Esperamos que seja este ano”, avança Rabelo, sem revelar o nome da empresa.

Com a aquisição, a MB busca, a partir do México, explorar outros países após estabelecer operações no país asteca. “Acreditamos que o mercado está cada vez mais conectado”, afirma o CEO.

 

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